Light as a Dimension of Space and Time

Emília Ferreira (2009)


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  • This text was written for the catalog from Another one who wants to move abroad by Arteportugal Gallery, Okt. 2009 in Lisbon.

    Light as a Dimension of Space and Time

    On looking at the pictures of the eight paintings that Jorge Lopes has selected for this exhibition, it is colour that strikes one most. Bright, contrasting, bold; strong. And then, naturally, the inherent gesture, where the stroke is expansive, rapid, intuitive; assertive. Finally, the space, constructed by successive chromatic layers, by the accumulation of lines, by the erasure or semi-revelation of previous sketches. And, with it, the material, which is evident in the more compact or more transparent quality of the oil, creating textures and light modes that model them, reveal or hide them. That is how Jorge Lopes achieves a temporal quality in his painting that is simultaneously thought out, reflected upon, but which embraces the unintentional. Surpasses the unintentional.

    It is interesting to realize that its artist feels time as an ally, in the building of a work that lays incessant obstacles. Indeed, oil – the preferred medium of this painter though he has also worked with acrylic or Indian ink in works on paper – requires waiting periods; and these limit precipitation, propitiating maturation. The task is thus processed within the range of time, interweaving what is planned, surmounted, the immediate. The unintentional (or its imitation: more diluted colours that flow, mixing with others that are not quite dried, or superimposing themselves on others) and surmounting it – something that experienced painters refer to as a constant struggle in the task of painting -, the integration of the unexpected and the resolving of the problems which that provides, is the territory in which this painting also emerges.

    Moreover, oil allows a transparency and a density that are each unique. Thus it serves this painting, by an artist who often did plein air sketching in his training. Surely the light modeling of the space in full pictorial exercise must come from that contact with the structure of the landscape, in these compositions without identifiable reference. In other words, this is not the work of a drawer. Here, the stroke is colour rather than concept and outline; the stroke is shading, more than definition and line. And so it is in the simultaneous contrast, in the tonal projections, that the two-dimensional surface eludes the third dimension.

    Space is clearly the great temptation of this painting – and it is achieved in the light modeling as much as in the size of the frames, and also in the fact the artist is working in continuity, i.e. not being closed into one painting at a time. And if the painter measures (confronts) himself physically in it, he is not the only obstacle but is also joined by the aforementioned time. Between each moment of “deserting” a painting and each “return” to it, there is a whole look, a building of structure, an approach to all that is being created. This is also why we understand that oil serves him so well in the building of his labyrinth.

    His labyrinth is not alien to the complex web of work titles, all the more enigmatic because the non-figuration of this painting repels any attempt at thematic definition. The experiences of the artist, his plastic, literary or mundane influences are intersected in them. Melancholic, ironic, painful or happy, each title suggests what the painting evokes, in a strict relation with the cadence of the logos.

    The same exercise accompanies this project. mais um que quer ir lá para fora” (another one who wants to move abroad) is the title of this exhibition by Jorge Lopes, Portuguese artist who has lived for some years in Berlin – city of historical and cultural crossroads, a place stratified par excellence, current island of our idea of Europe. But what is it to move abroad? What does this mean at a time in which the boundaries of the world have changed, the creative boundaries are forged in mixed identities, in intersecting histories and stories?

    The fora*, as the history of painting has shown, is always, first and foremost, the search for each painter’s own light; that of their masters, their peers, their places of mystery. Naturally, it is also the pursuit of confrontation, of opportunities, of revelation. Therefore, in the same way the fora* will always guard the enigma of our ghosts, of our past interwoven with the present. And today, perhaps, it will embrace the home more than ever.

    That is also why a painting is more easily read and enjoyed in a plural encounter – eight, in this case. As it shows us its artist, from abroad to us here at home, involving us in the space and the light of its web.

    * In Portuguese fora means both outside and abroad

    Emília Ferreira

    Curator. Works for the Modern Art Centre – Calouste Gulbenkian Foundation, since 1997 and the Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, since 2000. Teaches History of Art at the Escola Superior de Educação – Instituto Jean Piaget (Higher School of Education – Institute Jean Piaget), Almada, Portugal.

  • Este texto foi escrito para o catálogo de Mais um que quer ir lá para fora, na Galerie Arteportugal em Outubro de 2009 em Lisboa.

    A Luz como Dimensão do Espaço e do Tempo

    Ao olhar para as imagens das 8 telas que Jorge Lopes escolheu para esta exposição, ressalta, antes de mais, a cor. Viva, contrastante, atrevida; pujante. Depois, naturalmente, a gestualidade. O traço é vasto, rápido, intuitivo; assertivo. Finalmente, o espaço, construído através de sucessivas camadas cromáticas, da acumulação de traçados, do apagamento ou da semi-revelação de registos prévios. E, com ele, a matéria: patente na qualidade mais compacta ou mais transparente do óleo, criando texturas e os modos da luz que as modela, as revela ou esconde. Eis como Jorge Lopes consegue, na sua pintura, uma qualidade temporal simultaneamente pensada, reflectida, mas acolhedora do acidente. Superadora do acidente.

    É interessante perceber que o seu autor sente o tempo como aliado, na construção de um labor que coloca incessantes obstáculos. Com efeito, o óleo — o medium preferido deste pintor que, no entanto, tem também obra a acrílico ou tinta-da-china, nos trabalhos sobre papel — obriga a esperas; e estas coarctam a precipitação, propiciando a maturação. O ofício processa-se assim na tessitura do tempo, urdindo o planeado, o debelado, o imediato. O acidente (ou o seu simulacro: cores mais diluídas, que escorrem, misturando-se com outras ainda mal secas, ou sobrepondo o seu corpo a outras) e a sua superação — algo que os pintores experientes referem como luta constante no ofício da pintura —, a integração do inesperado e a resolução dos problemas que isso nos apresenta, é o território em que se ergue também esta pintura.

    O óleo permite, além disso, uma transparência e uma densidade únicas. E assim serve esta pintura, de um oficiante que já fez, na sua formação, muito registo de plein air. Será, aliás, seguramente, desse contacto com o corpo da paisagem que resulta, nestas composições sem referente identificável, a luz modelando o espaço em pleno exercício pictórico. Ou seja: este não é um trabalho de desenhador. Aqui, o traço é cor, mais do que conceito e contorno; o traço é mancha, mais do que definição e linha. E por isso é no contraste simultâneo, nas projecções tonais, que a superfície bidimensional ilude a terceira dimensão.

    O espaço é, claramente, a grande tentação desta pintura — e fá-lo tanto na modelação lumínica, como na dimensão dos suportes, como ainda no facto de o artista trabalhar em continuidade, não se fechando numa tela de cada vez. E se nele o pintor se “mede” (se confronta), fisicamente, não é ele o único obstáculo que se lhe apresenta, mas, também, o já mencionado tempo. Entre cada momento de “abandono” de uma tela e de cada “regresso” há um olhar de conjunto, uma construção de estrutura, uma abordagem do todo que se erige. Por isso, também, se compreende que o óleo o sirva tão adequadamente, na construção do seu labirinto.

    A este labirinto não é alheia a complexa teia de títulos das obras, tanto mais enigmática quanto a não figuração desta pintura repele qualquer tentativa de definição temática. Neles se cruzam as vivências do artista, as suas influências plásticas, literárias ou mundanas. Melancólico, irónico, doloroso ou alegre, cada título indicia o que a pintura evoca, numa relação estreita com a vibração do logos.

    O mesmo jogo acompanha este projecto. “Mais um que quer ir lá para fora” é o título desta exposição de Jorge Lopes, artista português residente há alguns anos em Berlim — cidade de encruzilhadas históricas e culturais, lugar estratificado por excelência, ilha actual da nossa ideia de Europa. Mas o que é ir lá para fora? O que é isso num tempo em que os limites do mundo se alteram, os limites criativos se forjam em identidades mestiças, em cruzamentos de histórias e de estórias?

    O fora é sempre, como a história da pintura tem demonstrado, antes de mais a procura da luz própria de cada pintor. Dos seus mestres, dos seus pares, dos seus lugares de mistério. Naturalmente, é também a perseguição de confronto, de oportunidades, de revelação. Por isso, o fora guardará sempre, do mesmo modo, o enigma dos nossos fantasmas, do nosso passado entretecido com o presente. E hoje, porventura, abarcará mais o dentro do que nunca. Eis também porque uma tela é mais facilmente lida e fruída num encontro plural. A 8, neste caso. Como nos mostra, lá de fora cá para dentro, envolvendo-nos no espaço e na luz da sua teia, o seu autor.

    Emília Ferreira

    Curadora. Colaboradora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, desde 1997, e da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, desde 2000. Docente de História da Arte na Pós-Graduação em Gestão de Projectos Culturais da Escola Superior de Educação do Instituto Jean Piaget, Almada.



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